Tinha um livro aberto no colo, mas não lia. A mente afundara-se nas mais profundas recordações da vida passada e o corpo imóvel parecia perdido no espaço silencioso. Imagens perdidas e deslocadas passavam-lhe diante dos olhos sem que as fixasse e o tempo escoou-se impiedosamente. Caiu a noite e o transe deu lugar a um sono de sonhos profundos, transformados por uma miríade de fragmentos desordenados. Acordou à luz matutina, entorpecida de encontro à vidraça fria. Esticou-se, derrubando o livro esquecido, que caiu no chão com um baque surdo; apanhou-o e pousou-o displicentemente sobre a mesinha. Estremeceu e olhou em volta. Há quanto tempo estava ali? Um suspiro exausto escapou-se-lhe dos lábios descorados quando atravessou a sala sombria e saiu para o vestíbulo. A casa estava mergulhada num silêncio vazio, enquanto do lado de fora das janelas altas o céu passava de cinzento a violeta, depois a azul pálido. Era um novo dia que a saudava, indiferente à dor da sua perda, como se lhe sussurrasse uma nova oportunidade.

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