Isto há com cada um...Querem ver que agora trabalhar é mau! Onde é que eles ouviram tal coisa?, pensou, distraída com a conversa dos rapazes. E continuou com a costura, abanando a cabeça em reprovação e deitando olhares significativos ao irmão, que respondia com um encolher de ombros, como quem diz: coisas de rapazes. Ao fim de algum tempo, Clara deu por terminada a sua tarefa e retirou-se, um tanto ou quanto cansada de tanta gabarolice. Daí a alguns momentos ouviu a porta da rua e a casa ficou, por fim, silenciosa. Dinis veio ter com ela, como quem quer perguntar alguma coisa, mas quedou-se a olhá-la infinitamente, até que a irmã se impacientou e perguntou:
- O que é?
- Estava a pensar - disse ele, mantendo aquela expressão pensativa que ela conhecia tão bem.
- Em quê, no dia de ontem? - brincou Clara, tentando conter um sorriso.
- Ah, ah, muito engraçada, Clara! Não, estava era a pensar no que há-de ser a minha vida quando terminar o colégio.
- Ah! - exclamou Clara, com uma expressão conhecedora - Alguma coisa relacionada com a conversa dos teus amigos?
- Sim e não - respondeu Dinis, sem a encarar.
- Então? - insistiu Clara, quando o silêncio se estendeu demasiado.
O rapaz suspirou e deixou-se cair ao lado dela no sofá. Clara pousou o livro na mesa de apoio e endireitou-se, à espera. De cenho franzido, ele acabou por confessar:
- Digamos apenas que os negócios comerciais que o pai nos legou não são o que mais me atrai como vida de trabalho, embora a minha educação seja quase toda vocacionada para os mesmos!
- Entendo o que queres dizer - replicou a irmã, gentilmente, antes de aditar muito séria - Porém, espero que tenhas consciência de que estes negócios são todo o património que o pai nos legou. Seria de muito mau tom se não fossemos nós a geri-los! - fez uma pausa para respirar e rematou - O nosso irmão não pode se pode responsabilizar por tudo sozinho, é nosso dever partilhar essa responsabilidade.
Dinis ponderou nas palavras dela por uns instantes, depois sorriu-lhe em jeito de despedida e saiu. Clara não o voltou a ver até à hora do jantar; tinha acabado de verificar a refeição com a cozinheira quando os dois irmãos entraram em casa em amena cavaqueira.
- Ora, imagina tu, Clara, que este asno me apareceu lá no escritório esta tarde, a indagar sobre os negócios! - comentou Alexandre, com um sorriso zombeteiro - Que lhe disseste para lavrar tal disposição, querida irmãzinha?
- A verdade: que os negócios do pai são responsabilidade dos três e, por isso, o Dinis não se deve meter em aventuras quando terminar o colégio no ano que vem.
Alexandre sorriu, agradado com o espírito razoável da irmã.
- És a mais nova, mas sempre foste a mais sábia de nós os três, mana! - exclamou, dando-lhe um beijo na testa.
- Ora, deixem-se de lamechices e vamos jantar! - atalhou Dinis, sempre impaciente à hora da refeição.
Os irmãos riram-se e seguiram-no até à sal de jantar. Não se falou mais no assunto dos negócios e, quando o Verão terminou, Dinis e Clara regressaram ao colégio. No Verão seguinte, Dinis completou a sua educação e cumpriu a promessa muda que fizera à irmã durante a sua conversa, indo auxiliar o irmão com os negócios. Mais tarde, Clara juntou-se-lhes e nunca antes se haviam sentido tão unidos pelo mesmo propósito como então. Apesar das grandes responsabilidades, os três irmãos eram felizes.

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