Há já dois anos que andava para ler este livro e apesar de se ter revelado algo diferente daquilo que eu supunha, é uma leitura muito interessante, tratando uma questão que por vezes tendemos a ignorar: a capacidade de nos colocar no lugar do outro e dar mais de nós. Não é exactamente o género de leitura que me arrebata por completo, mas gostei da sua descomplexidade desarmante. Para além disso, a carga emocional que carrega é intensa e remete-nos para a nossa própria humanidade imperfeita. Apesar de a perda de um ente querido, ainda para mais um bebé que mal começou a viver, ser um tema um tanto ou quanto pesado, a autora transmite-nos a ideia de que o amor, seja qual for a sua forma, tem a terrível tendência a superar as mais controversas circunstâncias. Trata-se de uma narrativa forte e provocante, que suscita profundas inquietações e reflexões sobre como cada um de nós reagiria no lugar de qualquer uma das personagens, desafiando-nos constantemente a contestar as suas motivações. Vale a pena reflectir com e sobre este romance que, de certa forma, nos instiga a procurar a melhor maneira de conquistar a melhor versão de nós próprios.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Pedaços de Escrita #55
Jake sempre fora um sonhador. Desde muito novo que sonhava conhecer o mundo inteiro, viajando com uma simples mochila às costas, sem destino ou paragens obrigatórias. Os pais mostravam-se sempre apreensivos quando ele sugeria uma qualquer viagem extraordinária, pois eram pessoas mais terra-a-terra. Apesar de entenderem, conformavam-se com o espírito livre daquele filho que, apesar de idealista, sempre dera provas de ter os pés bem assentes no chão. Sim, embora se apresentasse como cidadão do mundo, Jake sabia que, por muito nobre que fosse a causa que apoiava, o seu esforço solitário jamais sortiria qualquer efeito.
No entanto, sabia muito bem o que queria da vida: trabalhar para viver e, não, viver para trabalhar. Felizmente, o seu trabalho de cronista chegava para as suas ambições de viajante, concretizando-as pouco a pouco. Como tal, Jake decidira que passaria três meses por ano a viajar. Começaria pela Europa, porque havia um efeito encantatório que o fascinava pelo velho continente. Nesse ano escolhera visitar França, Itália e Áustria; indo ao encontro da aventura. Reuniu um pequeno grupo de amigos e, apesar das reservas das famílias, partiram na data combinada, indo à procura da realização de um sonho antigo.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Pedaços de Escrita #54
Voltava sempre à mesma dúvida por esclarecer: Porque é que isto me acontece?. Parecia incapaz de ultrapassar aquele percalço da sua vida, vivendo como uma enclausurada, parada no tempo. Ficava simplesmente ali a olhar pela janela, a ver toda a gente avançar com a sua vida. Ele suspirava, já sem saber o que fazer, vira todos os seus gestos carinhosos serem ignorados. Se ao menos o seu desejo de maternidade se realizasse, talvez aquela apatia fosse varrida do seu semblante e a sua querida esposa voltasse a sorrir. Mas o que fazer se, mal se aproximava, ela lhe silvava, como um gato, para o afastar.
Após dias de desânimo, estava sentado no sofá, à espera nem sabia bem de quê. Pousou os cotovelos nos joelhos e escondeu o rosto nas mãos. Algum tempo depois, apercebeu-se da presença dela a seu lado. Ergueu o rosto, surpreendido, pegou-lhe nas mãos e beijou-lhas. Ela sentou-se ao lado dele, dobrando as pernas junto ao corpo e olhou-o fixamente. Ele acariciou-lhe o rosto e ela chegou-se para mais perto, sem o desfitar. Arrepiado perante aquele olhar, ele pousou-lhe nos lábios entreabertos um beijo prenhe de desejo, sentindo-a arquejar. Subitamente, ela sentou-se no seu colo e desapertou-lhe lentamente os cordões da camisa, enquanto os lábios dele viajavam pelo seu pescoço, demorando-se no ombro e depois no peito, onde as mãos dele mergulharam ao abrir-lhe o corpete.
Encararam-se momentaneamente, eletrificados por aquele desejo mútuo desmesurado, sem saber de onde surgira, apenas que quando a paixão se inflama, alastra tão profusamente que a razão se some indefinidamente. Amaram-se ali mesmo com tal furor que perdurou nos dias que se seguiram, como se, como jovens apaixonados que eram, quisessem perpetuar eternamente a solidez da sua união. Meses mais tarde, essa solidez proporcionou-lhes o momento mais feliz da sua vida: a chegada do seu tão desejado bebé.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Reflexões #6 - Pequenos Passos
A vida é como uma montanha russa, cheia de emoções e estados de espírito conturbados, de estranhas coincidências e peripécias inesperadas. Por vezes até parece ridículo confiar em certas máximas ou superstições, mas o que é certo é que, na maioria das vezes, as coisas acontecem mesmo quando menos esperamos. Não sou supersticiosa, mas por uma razão qualquer que não sei explicar, sempre acreditei que tudo acontece quando tem de acontecer, independentemente de ser coincidência ou não.
Pelo menos é o que tem acontecido comigo, apesar de serem quase sempre pequenas grandes conquistas, quando comparadas com o sonho de ser escritora. Este mês aconteceu mais uma dessas conquistas: comecei a trabalhar. O que significa que o tempo dedicado à escrita foi reduzido, mas sinto que estou a fazer alguma coisa útil. Quer com isto dizer que é necessário equilibrarmos aquilo que queremos fazer com aquilo que temos de fazer para o alcançar. Ou seja, mesmo acreditando que existe um momento devido para acontecer qualquer coisa, é preciso fazermos com que esse momento se proporcione. O rumo das nossas vidas depende somente das nossas escolhas e da aceitação das consequências das mesmas.
Também é verdade que, muitas vezes, o esforço que empreendemos na luta pelos nossos objectivos, quer sejam pessoais, quer sejam profissionais, se torna exasperante. O importante é descobrir a melhor maneira de contornar as adversidades e seguir em frente, procurando alcançar ou cumprir o objectivo definido.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Pedaços de Escrita #53
O mundo é assim, um lugar imenso repleto de sonhos, conquistas, fantasias e desgostos. É um lugar de alegria pura e tristeza profunda. É um lugar algo quebrado e algo reconstruído, que está longe de distinguir o certo ou o errado. De vez em quando atira-nos uma saraivada de chuva fria, outras vezes um raio de sol morno e outras ainda, um assobio de vento zangado. O mundo que pensamos conhecer é hoje um reflexo de luz na ilusão tormentosa, que não passa de uma realidade retorcida. O caminho que sobe a montanha na manhã fria é o mesmo que a desde na tarde amena, repleta de eterne promessa e vazia de actos compulsivos. À noite já só nos resta aquela chama de esperança que surge dos recônditos lugares inconscientes, provocando uma desconhecida vontade de lutar. Para isso, basta apenas dar um salto de fé que nos lança no abismo do inesperado de mente aberta às possibilidades que a vida nos apresenta.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Reflexões #5 - Leitura e Escrita
Sim, tenho andado ausente, mas por bons motivos: tenho andado a trabalhar num romance que comecei há cinco anos e infelizmente, ficou em stand-by devido à tese de mestrado. Por isso, só agora tive coragem de pegar nele. O que me traz a uma das minhas poucas resoluções de ano novo, que é não deixar os meus projectos literários para trás. Foi por este e outros motivos alheios à minha vontade que somente ontem consegui publicar uma opinião no blog.
Acontece que vivemos numa sociedade que, tanto quanto compreendo, não permite ler tanto quanto se deseja. Ou seja, existe pouco incentivo à leitura, começando pelo facto de que os livros em Portugal são caros. E é um facto que torna injusta a constatação de que se lê menos; não se lê menos porque não se queira, lê-se menos porque um bom livro custa, regra geral, entre 16 e 20€ ou mais! Há excepções, claro, mas ainda assim, é triste que não se valorize algo tão importante para o enriquecimento cultural de um país, que é a literatura.
Não sei se não será também por falta de incentivo, falta de tempo ou simples desinteresse que os portugueses lêem pouco. Quanto a mim, acho que não há melhor forma de passar o tempo, para além de que já foi provado cientificamente, várias vezes, que ler é uma das melhores formas de manter o cérebro saudável e prevenir doenças como o Alzaimer. Numa perspectiva geral, considero que a leitura é uma rotina importante a ser inserida no nosso quotidiano e quanto mais cedo, melhor!
Portanto, já sabem: leiam, porque ler faz bem à alma e à mente, torna-nos mais ricos e humanos e aproxima-nos dos outros. E pelo caminho incentivem quem amam a ler também, é sempre melhor quando se pode falar sobre livros com alguém que também os entenda! Boas-leituras!
Portanto, já sabem: leiam, porque ler faz bem à alma e à mente, torna-nos mais ricos e humanos e aproxima-nos dos outros. E pelo caminho incentivem quem amam a ler também, é sempre melhor quando se pode falar sobre livros com alguém que também os entenda! Boas-leituras!
domingo, 22 de janeiro de 2017
Uma Mulher Respeitável, Célia Correia Loureiro
Depois da leitura arrebatadora de A Filha do Barão e de alguns meses de espera, eis que as mais firmes expectativas caíram por terra com a leitura tumultuosa desta nova narrativa da Célia Loureiro! Mais de cinquenta anos volvidos, o misterioso desaparecimento de Amélia parece ser ainda uma incógnita, mas, por outro lado, de onde surgiu Leonor Sanches? Mais uma vez, experienciamos um turbilhão de emoções diversas, cativados pela caracterização consistente das personagens, acompanhando os seus reveses e infortúnios da primeira até à última página.
Apesar da estrutura narrativa não ser tão linear como no livro anterior, a autora mantém a aura de mistério ao longo da história e retratando as agruras irónicas da vida de duas mulheres cujas escolhas da juventude as castigam permanentemente. Mas será mesmo tarde demais para encontrarem paz de espírito? Os acontecimentos deste livro foram contrários à minha perspectiva, isso é ponto assente, mas não deixei de gostar por isso, só não compreendo a escolha da autora quanto ao destino da filha perdida de Mariana e Daniel. Resta agora esperar para saber o desenlace desta intrigante trilogia histórica.
Apesar da estrutura narrativa não ser tão linear como no livro anterior, a autora mantém a aura de mistério ao longo da história e retratando as agruras irónicas da vida de duas mulheres cujas escolhas da juventude as castigam permanentemente. Mas será mesmo tarde demais para encontrarem paz de espírito? Os acontecimentos deste livro foram contrários à minha perspectiva, isso é ponto assente, mas não deixei de gostar por isso, só não compreendo a escolha da autora quanto ao destino da filha perdida de Mariana e Daniel. Resta agora esperar para saber o desenlace desta intrigante trilogia histórica.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
2017!
Eis que passou mais um ano, repleto de diferentes peripécias, umas melhores que outras, naturalmente, mas com poucos objectivos alcançados. Começa a cansar manter a esperança de que as coisas melhorem quando, se formos a analisar bem a situação, mantém-se tudo na mesma. Para mim, 2016 foi um ano muito pobre em termos de escrita, como se verifica pelo blog, em termos gerais, ou seja, o meu trabalho aqui ficou muito aquém das minhas expectativas iniciais. Porém, há sempre um novo ano para melhorar e 2017 pode ser uma boa oportunidade para o conseguir, mas não prometo nada. Entretanto, votos de boas leituras e de um ano repleto de coisas boas!
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
F*ck! I'm in my Twenties, Emma Koenig
Depois da minha última leitura, este pequeno livro não podia ser mais assertivo quanto à confusão que se instala na cabeça da maioria dos jovens adultos, durante e após a faculdade. Afinal o que é ser adulto? Esta é a grande questão à qual ninguém nos pode responder para além de nós próprios. E a verdade é que só descobrimos como ser adultos ao aprendermos com os nossos erros e más decisões. No fundo, o grande "drama" dos 20s é o facto de despertarmos da noção fantasiosa e infantil sobre o que é ser adulto, uma vez que é quando nos deparamos com a realidade em primeira mão. Acho que a Emma acabou, eventualmente, por ultrapassar a sua autocomiseração, embora com muito esforço. Somos todos diferentes e não me sinto exactamente como ela, mas compreendo a frustração e a irritação que descreve em alguns episódios, porque continuo a sentir-me como uma miúda e interrogo-me frequentemente: "O que estou eu a fazer?". Em suma, creio que ninguém (ou quase) da minha geração saiba exactamente o que está a fazer ou que se sinta totalmente realizado aos 20 anos. Resta-nos ir vivendo um dia de cada vez e fazer o melhor que somos capazes para sermos felizes.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Robinson Crusoe, Daniel Defoe
Este começou por ser mais uma das minhas leituras obrigatórias da faculdade e, como tal, acabou por perder o interesse na altura. Mas como os clássicos são sempre os clássicos, achei que estava na altura de lhe dar uma oportunidade. Não é mau, mas também não acho que seja um ex-libris literário. Aquilo que começa por ser um acto de rebeldia e aventura, rapidamente se transforma numa longa penitência. Contudo, o protagonista contorna a sua situação desesperada numa vida razoavelmente confortável, inventando e construindo quase tudo de raiz. Robinson torna-se caçador, agricultor, construtor, pastor, etc., para poder sobreviver na ilha. Além disso, o passar dos anos torna-o cauteloso, mas não elimina a esperança de uma dia sair da ilha e quando se lhe apresenta essa oportunidade não hesita. É mais uma daquelas narrativas que nos mostra quão tolos corrermos o risco de ser quando somos novos e como, muitas vezes, só alcançamos o arrependimento face à impetuosidade juvenil muito mais tarde na vida. Esta história faz-me lembrar, em certa medida, a parábola do Filho Pródigo; e embora Robinson regresse a uma casa deserta após 35 anos de ausência, é capaz de reconstruir a sua vida na sociedade. Tal como ele, muitas vezes recusamos ouvir os conselhos dos mais velhos e, ao agir consoante a nossa vontade, acabamos por nos perder na ironia intrínseca da vida, cujas circunstâncias nem sempre nos cabe a nós controlar, por isso há que reflectir bem nas nossas acções e nas suas consequências.
Subscrever:
Comentários (Atom)







