Nunca tive por hábito ler autores portugueses clássicos, o que considero ser uma grande falha não ler a nossa literatura. Confesso que ainda assim tenho uma certa inclinação pelos autores românticos e, por isso, tive curiosidade em ler Júlio Dinis, até porque que é uma leitura bem mais satisfatória quando a curiosidade nasce espontaneamente em nós, daí ter juntando Uma Família Inglesa à minha biblioteca. Uma narrativa romântica e divertida pelos seus encontros e desencontros, numa escrita fluída, embora lenta até aos últimos capítulos, que reúne um tanto ou quanto de conto de fadas, mas com um argumento sólido e personagens bem caracterizadas. Apesar de tudo, sobretudo o desfecho do qual esperava mais qualquer coisa, a estória superou as minhas expectativas em relação autores lidos pela primeira vez, por isso, não tenham reservas em ler também os nossos grandes autores clássicos!
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Pedaços de Escrita #63
Isto há com cada um...Querem ver que agora trabalhar é mau! Onde é que eles ouviram tal coisa?, pensou, distraída com a conversa dos rapazes. E continuou com a costura, abanando a cabeça em reprovação e deitando olhares significativos ao irmão, que respondia com um encolher de ombros, como quem diz: coisas de rapazes. Ao fim de algum tempo, Clara deu por terminada a sua tarefa e retirou-se, um tanto ou quanto cansada de tanta gabarolice. Daí a alguns momentos ouviu a porta da rua e a casa ficou, por fim, silenciosa. Dinis veio ter com ela, como quem quer perguntar alguma coisa, mas quedou-se a olhá-la infinitamente, até que a irmã se impacientou e perguntou:
- O que é?
- Estava a pensar - disse ele, mantendo aquela expressão pensativa que ela conhecia tão bem.
- Em quê, no dia de ontem? - brincou Clara, tentando conter um sorriso.
- Ah, ah, muito engraçada, Clara! Não, estava era a pensar no que há-de ser a minha vida quando terminar o colégio.
- Ah! - exclamou Clara, com uma expressão conhecedora - Alguma coisa relacionada com a conversa dos teus amigos?
- Sim e não - respondeu Dinis, sem a encarar.
- Então? - insistiu Clara, quando o silêncio se estendeu demasiado.
O rapaz suspirou e deixou-se cair ao lado dela no sofá. Clara pousou o livro na mesa de apoio e endireitou-se, à espera. De cenho franzido, ele acabou por confessar:
- Digamos apenas que os negócios comerciais que o pai nos legou não são o que mais me atrai como vida de trabalho, embora a minha educação seja quase toda vocacionada para os mesmos!
- Entendo o que queres dizer - replicou a irmã, gentilmente, antes de aditar muito séria - Porém, espero que tenhas consciência de que estes negócios são todo o património que o pai nos legou. Seria de muito mau tom se não fossemos nós a geri-los! - fez uma pausa para respirar e rematou - O nosso irmão não pode se pode responsabilizar por tudo sozinho, é nosso dever partilhar essa responsabilidade.
Dinis ponderou nas palavras dela por uns instantes, depois sorriu-lhe em jeito de despedida e saiu. Clara não o voltou a ver até à hora do jantar; tinha acabado de verificar a refeição com a cozinheira quando os dois irmãos entraram em casa em amena cavaqueira.
- Ora, imagina tu, Clara, que este asno me apareceu lá no escritório esta tarde, a indagar sobre os negócios! - comentou Alexandre, com um sorriso zombeteiro - Que lhe disseste para lavrar tal disposição, querida irmãzinha?
- A verdade: que os negócios do pai são responsabilidade dos três e, por isso, o Dinis não se deve meter em aventuras quando terminar o colégio no ano que vem.
Alexandre sorriu, agradado com o espírito razoável da irmã.
- És a mais nova, mas sempre foste a mais sábia de nós os três, mana! - exclamou, dando-lhe um beijo na testa.
- Ora, deixem-se de lamechices e vamos jantar! - atalhou Dinis, sempre impaciente à hora da refeição.
Os irmãos riram-se e seguiram-no até à sal de jantar. Não se falou mais no assunto dos negócios e, quando o Verão terminou, Dinis e Clara regressaram ao colégio. No Verão seguinte, Dinis completou a sua educação e cumpriu a promessa muda que fizera à irmã durante a sua conversa, indo auxiliar o irmão com os negócios. Mais tarde, Clara juntou-se-lhes e nunca antes se haviam sentido tão unidos pelo mesmo propósito como então. Apesar das grandes responsabilidades, os três irmãos eram felizes.
Reflexões #23 - O Princípio da Realidade e os Limões da Vida!
Ultimamente tenho-me sentido algo decepcionada com certas circunstâncias e pessoas e pessoas da minha vida, algumas das quais, de certa forma, eu já antevira quando era mais nova. Também têm acontecido coisas boas, sim, mas são mais aquelas que me deixaram à nora nos últimos tempos. Em relação a algumas situações e atitudes, tenho consciência de que, por muito que me revoltem, provavelmente não está nas minhas mão resolvê-las. Sobre certas outras, porém, cheguei à conclusão de que não vale a pena sofrer por antecipação.
Para além disso, percebi que não podemos medir ou cingir a nossa realização a um determinado número de anos, temos de viver um dia de cada vez e ver o que acontece, e também não podemos reger o nosso pensamento pelos intermináveis "ses" que cada decisão nos obriga a deixar para trás: "Se eu tivesse feito / ido/ dito/ tirado /posto/ acontecido, etc...". Há um momento em que somos obrigados a esbofetearmo-nos e firmar: "Chega de auto-comiseração e de "ses"! De agora em diante vou viver no presente e seguir o meu caminho, vou ser feliz com as minhas escolhas e controlar apenas aquilo que depende de mim!".
Eu estou a viver esse momento. Quero mais do que tudo, andar com a minha vida para a frente e, como tal, tive de saltar para fora da minha zona de conforto e "agarrar" um trabalho que não tem nada a ver com a minha formação. Chama-se a isto o Princípio da Realidade, como me disseram recentemente, e infelizmente há muita gente que tem de se reger por este princípio para conseguir ter uma vida digna. No fundo, tudo isto significa que, quando se quer muito uma coisa nesta vida, temos de trabalhar e lutar para a conseguir, temos de nos adaptar às circunstâncias, tal como o camaleão se adapta ao meio envolvente, e desenvolver outras capacidades, que por vezes desconhecemos.
Claro está que ao fazer isto não devemos deixar para trás os nossos sonhos, pelo contrário, devemos agarrar-nos aos mesmo ainda com mais afinco! Não é fácil, mas consegue-se com empenho, determinação e disciplina. É como diz o ditado: "Se a vida te dá limões, faz limonada". E com este calor, bem que apetece, não acham? Vá, vão fazer a vossa limonada da vida, que eu estou a fazer a minha!
segunda-feira, 23 de julho de 2018
Sobre a Minha Entrevista na Rádio!
Olá leitores! Tal como vos disse na segunda-feira passada, este Sábado estive em directo no estúdio da RDS Rádio e KFM para falar sobre mim e sobre o meu livro, Este Mundo e o Outro. Tratou-se de uma conversa semi-informal com o Carlos Pinto Costa, que durou cerca de uma hora e que incidiu sobre mim, o meu livro e a literatura.
Foi mais uma experiência boa a acrescentar ao meu percurso como autora, para além de ser a primeira entrevista oficial! Espero que tenham ouvido e gostado, mas sobretudo espero ter-vos aguçado o apetite pela poesia e pelo meu tralho em particular, claro! Agora é esperar para ver o que acontece a seguir... Let's do the magic work, shall we?
terça-feira, 17 de julho de 2018
Reflexões #22 - Os Livros
Nos últimos tempos tenho pensado e falado muito sobre livros, tanto como escritora como leitora. Primeiro, relativamente ao que posso fazer para catapultar o meu livro e a minha carreira literária, segundo, para satisfazer a minha necessidade intelectual de absorver novas estórias. Porém, tenho constatado que o nosso mercado livreiro ou literário é uma faca de dois gumes, pois se por um lado parece haver cada vez mais editoras (e autores) a competir entre si pela atenção do público leitor, por outro, o público leitor parece cada vez mais reduzido ou desinteressado. Das duas, uma: ou não há incentivo suficiente junto dos mais novos, nem interesse da parte dos mais velhos, ou os preços são realmente os grande dissuasores, quer de leitores "veteranos" quer de novos leitores.
É injusto, tanto para quem lê como para quem escreve (recordo que a maioria dos autores recebe quase sempre a percentagem mais baixa dos lucros de um livro, o que é um facto). Mas pondo as questões económicas de parte, tenho pensado nos livros de uma forma mais sentimental, porque aqui há uns tempos, passei por uma livraria e recordei-me dos primeiros livros que li enquanto leitora autónoma e deu-me vontade de os reler só pelo gozo. Estou a falar da colecção Uma Aventura, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, que foi a grande responsável pelo meu deslumbramento com a leitura. Li Uma Aventura nas Férias de Natal, algures no 3ºano, e a partir daí já não houve retorno, porque comecei a querer ler cada vez mais. É curioso como um acto tão simples se torna fascinante e indispensável para a nossa vida como respirar.
Os livros tornaram-se o meu porto seguro durante a adolescência, aquele lugar só meu onde não tinha que lutar e fingir para me integrar. No fundo, os livros fizeram de mim a pessoa que sou hoje, foram os amigos que não tive numa fase crucial da minha formação enquanto ser social e continuam a ser a âncora que me prende à realidade. Creio que também é importante ter em conta que a maior parte dos autores são leitores antes de serem escritores; parte do processo evolutivo da escrita passa por aí e, por isso, os escritores reconhecem-se uns aos outros com maior facilidade, inspiram-se e corrigem-se quando é caso disso.
Tendo tudo isto em conta, penso que hoje em dia as pessoas se esquecem que um livro é um tesouro incalculável, uma vez que a palavra escrita é a maior conquista do conhecimento humano. É maravilhoso o que um único livro pode fazer por nós! Sim, basta um livro para mudar a nossa perspectiva sobre muitas coisas e quem não cultiva, em si e nos outros, o hábito de ler não faz ideia da riqueza cultural que perde. Acresce a tudo isto o facto de haver muitas opções alternativas no mercado em termos tecnológicos, como os leitores digitais, mais fáceis de transportar, sem dúvida, e que ganharam adeptos nos últimos anos. Mas a maioria dos leitores (espero não estar enganada) prefere ainda sentir o livro-objecto nas mãos, a sensação de folhear e o cheiro do papel, bem como arrumá-lo numa prateleira para o ter sempre à mão.
Daí que talvez fosse sensato tornar os livros mais acessíveis a quem realmente quer ler. No que me diz respeito só não leio mais porque não posso comprar tantos livros como gostaria; caso contrário, era bem capaz de ler uns quatro ou cinco por mês todos os anos.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Vou À Rádio!
Olá queridos leitores! Como estão? Espero que estejam a ter um bom, senão mesmo óptimo, Verão, cheio de leituras!
Digamos que o meu tem sido razoavelmente interessante, preocupações e problemas à parte, e por isso tenho uma novidade para vocês:
Vou estar em directo na rádio Livros Rds/radio, no próximo Sábado dia 21, depois das 16h, para falar sobre o meu trabalho como escritora, nomeadamente sobre o meu livro Este Mundo e o Outro. Se ainda não tiveram oportunidade, aproveitem para encomendar o vosso exemplar autografado.
Podem ouvir através do rádio em 87.6 FM ou 92.2 FM. Se perderem o programa, não se preocupem, podem sempre ouvir mais tarde em www.kfm.pt ou http://www.rds.pt/rds-online.html.
Bem-haja.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Dançando sobre Vidro, Ka Hancock
Confesso que fiquei um pouco assombrada com a leitura deste livro, por retratar um cenário duro e repleto de emoções fortes e que, apesar de se tratar de uma estória ficcionada, transpira realismo. A verdade é que custa a acreditar que exista um amor assim tão forte, capaz de resistir à sentença cruel de um historial de cancro da mama e de bipolaridade, onde aparentemente não há espaço para a normalidade. Apesar tudo, esta dança contra o tempo e o destino, faz parar para pensar qual será, de facto, o nosso papel na vida do outro e vice-versa, mas também no quão mesquinhas podem ser as vicissitudes da vida, que nos relembram constantemente quão precioso é o nosso tempo e que só depende de nós qual será o nosso legado. Para além disso, faz-nos repensar o significado do Amor, que nos livros nos parece sempre tão certo e tão puro, fácil de assimilar, mas na realidade é muito mais difícil de definir e aceitar.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Reflexões #21 - Inspiração
Desde há umas décadas para cá que assistimos à formação de uma geração ou crescendo de gerações cada vez mais consumistas, resignadas, preguiçosas, egoístas, gananciosas, invejosas e falsas, que desistiram simplesmente de lutar por um futuro melhor. Para além disso, o sistema de ensino está caduco e inadequado às necessidades modernas e a educação familiar é quase inexistente porque as crianças já não sabem ser crianças e os jovens não têm respeito seja por quem for.
E onde fica a inspiração no meio disto? Não fica; desaparece, porque para sermos capazes de inspirar alguém, temos primeiro de nos inspirar a nós próprios, o que se torna gradualmente mais difícil de alcançar nos dias que correm, seja em que área for. A comunidade em geral desistiu de apreciar as coisas mais pequenas e mais puras da vida. Não digo que haja uma total falta de inspiração, apenas creio que acontece com muito menos frequência e aceito que possa ser somente uma distorção da minha percepção em relação ao que me é transmitido pelo que me rodeia.
A inspiração não acontece por acaso, tem de ser procurada com afinco e encontrada todos os dias. Mesmo quando não temos qualquer ensejo de o fazer. Quando me sinto mais necessitada de inspiração para escrever tento, sempre que possível, fazer um detox da rotina: ir passear ou passar um fim de semana fora, tal como fiz no fim do mês passado. Confesso que apesar de não ter sido perfeito, ajudou-me a recalibrar as energias e a organizar as ideias, daí que tenha resolvido dar um refresh ao template do blog (já agora, o que acham, está mais leve, certo?). Todos os pequenos momentos e detalhes podem ser uma fonte de inspiração, nunca se sabe o que vai aparecer no caminho, basta prestar atenção e aproveitar ao máximo.
sábado, 23 de junho de 2018
A Linguagem Secreta das Irmãs, Luanne Rice
Tinha este livro há já dois anos na minha lista de livros para ler e, apesar de ainda estar a digerir o final da história, posso afirmar que valeu a pena a espera. A autora transmite uma mensagem de senso comum muito forte ao colocar a questão de mandar mensagens a conduzir como mote para o desenrolar da narrativa. Porém, a peça-chave deste romance é a relação entre duas irmãs que são as melhores amigas e se vêem confrontadas com uma situação horrível que ninguém deveria ter de enfrentar, por causa de um erro crasso cometido por ambas. São raros os livros que me trazem lágrimas aos olhos e este foi um deles, porque apesar de as suas vidas terem mudado completamente numa fracção de segundos, ambas encontram forma de se conciliarem consigo mesmas e reconciliarem uma com a outra. Esta é a outra ilação importante a retirar desta história: que um irmão ou irmã deve valer mais do que mil amigos; isto nem sempre acontece porque as pessoas são complicadas e diferentes umas das outras, mas a verdade é que não há relações nem vidas perfeitas, por isso, devemos aceitar-nos uns aos outros como ser humanos imperfeitos que somos. Sem dúvida uma excelente leitura que recomendo vivamente, sobretudo a quem tem irmãos ou irmãs.
terça-feira, 5 de junho de 2018
Limões na Madrugada, Carla M. Soares
Confesso que após a leitura d' O Cavalheiro Inglês (ainda não tive oportunidade de ler O Ano da Dançarina) não estava à espera de nada tão brutal, vivido e realista! Este romance é em tudo diferente daquilo a que o estilo da autora nos habituou, pois trata-se de uma narrativa intensa, repleta de suspense e mistério que é impossível largar da primeira à ultima página, igualmente escrita com a mestria de uma grande contadora de histórias. Carla M. Soares trata o tema da violência doméstica e a possível repercussão nas gerações posteriores, que tem vindo a ser um problema social desde há séculos, numa época em que não era permitida qualquer interferência social, sobretudo em meios mais pequenos como vilas e aldeias, onde tudo se sabia, mas de tudo se fazia segredo, ou seja, as pessoas acabavam por ser cúmplices daquilo que hoje condenamos como crime público. Por outro lado, trata também a complexidade do amor familiar e conjugal, onde as regaras se confundem e misturam, até deixar de se perceber os seus limites. É assim, pela sua versatilidade que se distinguem os bons escritores.
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