segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Pedaços de Escrita #59





A luz pálida da madrugada dançava-lhe na face serena, profundamente adormecida. Do lado de fora, no topo da cerejeira em flor, os pintassilgos saudavam o novo dia numa chilreada melódica e compassada. Ao longe, um cão ladrou e na floresta ecoaram as primeiras machadadas dos lenhadores. Então o sol surgiu por cima da cumeada que escudava aquele pequeno vale dos olhares curiosos, espreitou pelas portadas sem pedir licença e encheu o quarto de fios de luz, despertando-a gentilmente. Mas ela não queria acordar; o quarto estava frio e a cama quente, agradável e convidativa!

Porém, a mãe não tardou a bater na porta para a acordar:
- Levanta-te, Joana! Há muito para fazer na herdade!

Joana bufou, exasperada. Havia sempre muito para fazer segundo a mãe e, se não houvesse, a mãe fazia com que houvesse (ou inventava, na opinião da filha). Saltou da cama, lavou-se, vestiu-se e desceu os degraus de madeira dois a dois. Sendo a mais nova de seis irmãos e a única rapariga, tinha uma certa vantagem em realizar as tarefas mais leves no que à casa dizia respeito, embora não se importasse de sujar as mãos. Contudo, era Inverno e não lhe apetecia nada ir lá para fora para o frio. Tomou o pequeno-almoço, enfiou-se no casacão grosso que pertencera ao irmão mais velho, nas luvas e no gorro e lá foi ajudar os irmãos, o Zeca e o Simão, a limpar o caminho principal.

Andaram grande parte do dia de um lado para o outro e quando deram as tarefas por terminadas, refugiram-se na sala, em frente à lareira, a saborear um chocolate quente e a conversar sobre o quanto a sua vida havia mudado e ainda iria mudar. Dinis, o irmão mais velho, saíra de casa havia cinco anos para ir para a faculdade, terminara o curso nesse ano e casara; seguiram-se os gémeos dois anos depois, os quais deviam estar a aparecer para a pausa semestral. Ter-se-ia seguido o Simão, mas este preferira ficar na herdade; o rapaz tinha alma de camponês, era ali que se sentia bem, apesar de ser bastante culto e perspicaz. O Zeca talvez fosse no ano seguinte, ainda não decidira, e Joana tinha a certeza de que, tal como Simão, queria ficar na herdade.

Talvez fosse por medo ou por hábito, mas o seu mundo cingia-se àquele vale, onde podia respirar, sentir-se inteira e livre. Numa cidade não teria nada disso, para além de que ali, no lugar que a vira nascer e crescer, poderia sempre dar aso à imaginação e escrever sempre que quisesse; o mundo podia conhecê-la através das suas palavras. Por seu turno, Joana conhecia do mundo o suficiente para não querer mergulhar nele de cabeça. 

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