sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Reflexões #1 - Nostalgia





Desde que me lembro, Setembro era um mês de excitação, ânimo e expectativa por causa do recomeço das aulas. Sim, eu sempre fui daquelas meninas que anseiam por regressar à escola, não porque tivesse amigos para rever, mas sim porque gostava muito de aprender. E, por isso, a meio de Agosto já estava cansada de férias, imaginem! Agora, Setembro suscita-me uma certa nostalgia em vez de excitação, mas também uma forte sensação de mudança e um apelo à reflexão.

Por exemplo, estava aqui a pensar que há quatro anos, quando comecei este blog, tinha expectativas completamente diferentes das que tenho hoje em relação ao mesmo. Confesso que, inicialmente, me senti aborrecida por não ter tanta visibilidade quanto desejava, mas aprendi a ter paciência e a não dar tanta importância a esse facto. Ainda assim, gostava que se interessassem mais e estou sem recursos para chamar à atenção das pessoas; enfim, gostos e cores não se discutem e não posso obrigar ninguém a gostar do que escrevo.

Para este mês, espero manter as minhas expectativas bem niveladas para não ter nenhuma decepeção (já as tive que chegue ao longo da minha vida de estudante!). Desejo apenas conseguir ler e escrever mais, actualizar o blog com maior regularidade e encontrar um rumo favorável para esta etapa da minha vida que está agora a começar. Esta nova rúbrica talvez seja um bom ponto de partida, o tempo o dirá.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pedaços de Escrita #51





Agosto era aquele mês quente em que não havia pais. Era o mês da liberdade, da descoberta, da inovação; quando as tardes eram passadas entre o pó dos caminhos da quinta e as brincadeiras de faz-de-conta. Era o mês da nostalgia ao pôr-do-sol, que parecia tão longo. Agosto era aquela parte das férias que se regia pelas regras da avó, em que estava tudo bem e não havia pressa. Era o mês dos filmes nas tardes de fim-de-semana, com a sala às escuras por causa do calor; das tardes dos bordados, das contas de parcelas intermináveis e longas horas de leitura. Era o tempo de reflexão ao sabor do roçagar dos pinheiros à passagem do vento ou ao som dos gritos das águias e dos cucos.

Agosto tinha o sabor da infância e agora apenas restam as memórias que o transformaram no mês fantasma e letárgico, aquele momento em que o tempo pára para que se oiçam os ecos dos risos, das histórias e dos momentos partilhados; os ecos de tudo o que se perdeu nos entretantos da vida e que faziam deste, o mês em que imperava a calmaria da liberdade e a ferocidade da esperança e dos sonhos. Ah, como foi bom ser criança no mês de Agosto!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Pedaços de Escrita #50





Cheira a corpos suados no ar cálido e penumbrento do quarto, resguardado do calor da tarde pelas portadas fechadas. Os nossos corpos movem-se ritmicamente em vibrações compassadas, por entre respirações ofegantes, beijos e carícias. Não é simplesmente luxúria, mas a necessidade de sintonia e união, de pertencer e amar o outro. Depois caímos naquele silêncio cúmplice e trocamos um olhar parado no tempo, como se tudo o resto deixasse de existir e fôssemos as únicas pessoas no mundo.

O Amor é assim: único para cada pessoa, envolto em mistério, em paixão e sensações diversas, que se tornam inexplicáveis. Mas o Amor físico é simples de entender, é tão natural ente dois amantes, porquê condená-lo? O Amor é, talvez, a única coisa lógica que resta no mundo, mas são raros aqueles que aprendem a concretizá-lo, porque a maioria das pessoas rende-se aos vícios, ao egoísmo, à mesquinhez e à ganância, quando o Amor é a força motriz da realização e da felicidade.

É preciso arriscar o Amor para viver em pleno, mas só os mais audazes se atrevem a fazê-lo e foi o que fizemos: arriscámos ser parte um do outro e conquistámos o Amor ao cultivar a harmonia entre as nossas diferenças, amando-nos naqueles momentos que são só nossos e constituem a nossa história.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Pedaçõs de Escrita #49





O grito ecoa na escarpa nua, um som indefinido, que não é nem de dor nem de júbilo. Nada se ouve para além do trovejar do mar a bater nas fragas. E nada se revolta na quietude da floresta imersa em sombras. A aridez da encosta rochosa contrasta fortemente com a mescla colorida do azul profundo do mar e do verde luxuriante da floresta.

A areia da praia é branca e fina como farinha e a rebentação um murmúrio bem-vindo, na hora da calmaria que vai passando, enquanto a luz muda de uma luminosidade branca para a luz dourada da tarde que ilumina e aquece a memória das coisas boas e felizes. O vento eleva-se, fazendo crescer o ribombar das ondas a quebrarem-se na praia.

As gaivotas gritam entre si, voando em bando, e o grito quebra de novo o silêncio da paisagem harmoniosa. Ecoa nas rochas e perde-se no vazio, mas, de repente, outro grito incerto responde ao primeiro e as duas almas perdidas reencontram-se sob a fina e translúcida luz crepuscular que cobre a praia à hora do ocaso.

A Filha do Barão, Célia Correia Loureiro





O meu gosto por romance histórico é bastante recente, mas confesso que fiquei rendida à prosa da Célia Loureiro desde da primeira à última página (tal como aconteceu com os livros da Carla M. Soares). Já andava para ler este livro há um ano e acho que lê-lo somente agora foi o timming certo, uma vez que promete uma continuação. Mesmo havendo algumas gralhas, que me fizeram tropeçar na leitura, este livro mexeu comigo de uma forma que muito poucos conseguiram, porque o sofrimento suportado pelos protagonistas me eriçou os nervos e porque, cada vez mais, é preciso acreditar em histórias de amor.

Uma história que evoca um episódio marcante na nossa História enquanto povo e a tenção associada ao mesmo, cujo enredo carregado de suspense, medo, dúvida, intriga e amor, se desenvolve em torno de personagens cativantes e frustrantes, as quais primam pela sua excelente caracterização. Para além disso, a panóplia de emoções que a narrativa suscita é inebriante, está repleta de avanços e recuos, desencontros e confrontos que prendem irrevogavelmente a atenção do leitor. Uma história de amor que retrata uma época em que a condição da mulher era, sob todos os aspectos, revoltante, e que insinua uma certa esperança na crença de um amor verdadeiro e duradouro. Confesso que fiquei atordoada com o final, que foi tão inesperado como inquietante. O que será que irá acontecer?


segunda-feira, 11 de julho de 2016

O Melhor Lugar do Mundo é Aqui Mesmo, Francesc Miralles e Care Santos





Já andava para ler este há algum tempo; um livro pequenino que nos diz tanto sobre aquilo que realmente importa: o presente. É uma leitura rápida e leve, mas muito curiosa e reflexiva, algo que de vez em quando também faz falta. A história de alguém que se desencantou com a vida e que por um acaso do destino descobriu que para vivermos plenamente temos de o fazer mesmo, aqui e agora. Porque a vida é construída no presente e as coisas acontecem quando as fazemos acontecer a altura certa. Creio que, ao debater esta questão do aqui e agora, os autores acertaram numa quase resposta à insatisfação de muita gente, porque grande parte do tempo desejamos as coisas, mas não fazemos nada ou fazemos muito pouco para que isso aconteça. E às vezes não é preciso procurar muito, basta ter atenção ao que sucede à nossa volta e agarrar as oportunidades que cruzam o nosso caminho. Gostei muito.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Dança dos Dragões e Os Reinos do Caos, George R. R. Martin



 


Nestes dois volumes, torna-se tudo muito mais complicado, mas são também muito reveladores em termos de suspeitas relativamente a alguns segredos deixados no ar nos volumes anteriores. A verdade está longe de ser descoberta na integra, as querelas agravam-se e perante o caos e o pronúncio do Inverno, há uma reconquista eminente, mas resta saber quem lhe sobreviverá e qual o fim desta grande saga. Não há dúvida que Martin escreveu com empenho e dedicação, uma história cavaleiresca de proporções épicas, onde nada é o que parece e cujas revelações são tão abruptas se sucedem umas às outras com uma rapidez vertiginosa.

O Festim dos Corvos e O Mar de Ferro, George R. R. Martin






Depois da atribulação causada pela guerra, o rescaldo dá origem a uma nova onda de intrigas, cada vez mais complexa, sem que se aviste um fim para as mentiras e meias verdades engendradas para atingir seja que objectivo for. Por cada situação a que se assiste o desfecho, Martin cria mais duas ou três, só para nos confundir mais um bocadinho, mas sempre mantendo as nossas expectativas em suspenso e fazendo-nos remoer os nervos que as atitudes de certas personagens nos causam. E o reboliço só piora daqui em diante!

A Tormenta das Espadas e A Glória dos Traidores, George R. R. Martin





Com estes dois volumes fiquei sem folego e em choque, porque não previa nada parecido (acho que é essa a ideia, ficarmos à nora!). Se por um lado os conflitos se tornaram mais tumultuosos, por outro as artimanhas e traições são cada vez piores. Para além disso, há um vislumbre do sobrenatural que começa a imiscuir-se na narrativa e que sugere a aproximação de algo que ninguém espera. A narrativa vai crescendo em crueza e frustração, revelando muito pouco e suportando o mistério com tantas personagens que tanto são envolvidas na narrativa como desaparecem da mesma. Porém, há um certo gozo no "castigo" aplicado a algumas personagens.

A Fúria dos Reis e O Despertar da Magia, George R. R. Martin






Após os sobressaltos finais do volume anterior, eis que nos deparamos com um cenário de guerra civil e diversas quezílias e intrigas espalhadas pelos Sete Reinos. O que é verdade e o que é mentira? A catadupa de emoções continua a surpreender nestes dois volumes, muito embora estejamos longe de obter qualquer resposta às nossas dúvidas.

É difícil escrever fantasia, mas criar algo tão complexo como esta saga parece-me quase impossível. Entre o enorme role de personagens e pequenos enredos, a mestria de Martin deixou-me agarrada à saga e a tentar descortinar uma série de ligações que, provavelmente, só serão reveladas no final.