quinta-feira, 31 de março de 2016

Pedaços de Escrita #45





Os lobos uivam à lua, quebrando o silêncio monótono da noite. Na quietude do bosque que rodeia a cabana, uma coruja pia em aviso que vai à caça. A noite é fria na montanha, onde a beleza e o perigo andam de mãos dadas; lá em cima, nos cumes, ainda há neve, um tapete compacto que decerto encherá os riso quando derreter. O assobio cortante do vento junta-se aos uivos dos lobos, enquanto vou escrevendo, sentada numa posição esquisita junto à lareira crepitante. 

A noite é sempre melhor para escrever, porque há espaço para criar sem a interferência do reboliço quotidiano. É mais fácil trabalhar as palavras e brincar com elas com a companhia sussurrante da euforia nocturna. O texto compõe-se quase por si próprio e a mente acelera com novas ideias, urgentes, que têm de ser atendidas. Escrevo pela noite dentro, acompanhada pela sinfonia dos uivos dos lobos e do vento, enquanto a lua segue o seu caminho pelo zénite, até à hora da calmaria que antecede a aurora de um novo dia de Primavera.

terça-feira, 8 de março de 2016

Pedaços de Escrita #44






Ode a nós, mulheres, que trazemos vida ao mundo e damos sempre o melhor de nós, que nos esforçamos até à dor para iluminar uma sala com a nossa presença, que sorrimos mesmo quando queremos chorar, que descobrimos forças onde apenas existe o vazio. Ode a nós, mulheres, que enfrentamos os desafios de cabeça erguida, que procuramos soluções criativas, que nos empenhados em cumprir os nossos objectivos e alcançar as nossas metas. Ode a nós, mulheres, que completamos o mundo com o nosso mistério.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Pedaços de Escrita #43





Era uma noite tempestuosa, fria e escura. Chovia torrencialmente e caia granizo, a força do vento dava voz à borrasca. Felizmente não trovejava. Ellie enroscara-se no sofá com uma manta sobre as pernas, um livro e uma caneca de chocolate quente. Não pretendia dormir até Drew chegar a casa, porque se sentia mais segura à noite quando ele estava. Desde que se lembrava, tinha medo de dormir sozinha e quando ele não vinha, Ellie não dormia; ficava a ler ou a ver filmes. Nessa noite, pelo menos não estava rodeada pelo silêncio, algo que sempre detestara. 

Acabara de beber o último golo de chocolate quando começou a cabecear e ao fim de algum tempo fechou os olhos. Mas continuava a ouvir a chuva a tamborilar na vidraça e atenta a qualquer movimento. O cansaço acumulado ameaçava vencê-la, mas Ellie não se deixou vergar e continuou à espera. Embrulhou-se melhor na manta, inspirou fundo e concentrou-se na chuva.
Então ouviu o estalido metálico da porta e sentou-se devagar no sofá. Drew surgiu à porta da sala, esboçando um sorriso encorajador e Ellie levantou-se para o ir abraçar.
- Demoraste - murmurou ela.
- Desculpa, a chuva atrasou-me - respondeu ele sem deixar de sorrir.
Ficaram abraçados naquela calmaria apenas quebrada pela chuva por algum tempo. Drew beijou-a na testa e disse:
- É tarde, devíamos ir dormir.

Ellie não respondeu. Quando Drew olhou para ela, reparou que adormecera e carregou-a até ao quarto. Deitou-a sobre as cobertas macias, trocou de roupa e deitou-se ao lado dela, cobrindo ambos com uma manta. Abraçou-a e fechou os olhos. Na quietude do quarto o único som que continuava a fazer-se ouvir era o tamborilar constante da chuva na janela e o assobio do vento daquela noite tempestuosa, fria e escura.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A Casa Redonda, Louise Erdrich





Quando um livro, além de best-seller, é também premiado deve ser mesmo bom. Não costumo ler livros premiados, nem os escolho por isso; escolho-os consoante aquilo que me chama à atenção na sinopse ou consoante o tema. Para além disso, e que me lembre, não há muitas obras que tenham por base um contexto de factos verídicos. Este livro retrata temas muito fortes de uma forma um tanto ou quanto simplista e incompleta, como é natural da perspectiva de um miúdo de treze anos que a autora nos apresenta. Por outro lado, o facto de evocar a complexidade as questões legais (e não só) em relação às reservas onde vivem os indíos norte-americanos, que ainda hoje provocam tensão nos EUA, chama à atenção para a necessidade de soluções para determinados problemas que não se resolverão se a comunidade continuar a fingir que está tudo bem; isto porque o racismo e a violência contra as mulheres continuam a ser problemas sociais presentes no mundo contemporâneo e estão longe de ter um fim à vista. Esta é uma obra que proporciona uma leitura reflexiva sobre a força de carácter e integridade necessárias a proceder correctamente, mas também sobre as consequências que advêm das atitudes mais inocentes.   

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A Voz, Juliet Marillier





Um mês após a leitura de O Voo do Corvo, eis que me deparei com o momento da verdade sobre esta trilogia. Neste último volume, depois dos acontecimentos decisivos que lançaram Neryn, Flint, os Boa Gente e os Rebeldes numa corrida contra o tempo, Marillier apresenta-nos o lado vitorioso da perserverança e da coragem, mas também a mágoa da perda e o confronto cru com a própria consciência. A narrativa de Marillier é tão excelente que nos desperta uma miríade de emoções, como se vivêssemos a história ao lado dos protagonistas, algo que, na minha sincera opinião, não acontece com qualquer autor. Gostei muito das obras de Marillier que li anteriormente, desta gostei mais ainda que rapidamente se tornou uma grande favorita e acho que a autora dificilmente deixará de nos supreender.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Pedaços de Escrita #42






- Já não se usam chapéus - dizia a avó Julieta enquanto atravessávamos a rua ao regressarmos do chapeleiro. - Sabes, Lúcia, os chapéus costumavam ser um adereço muito importante na toillette de uma senhora.
Para a avó Julieta a toillette de uma senhora queria dizer muita coisa. Como as senhoras já não usam chapéus, a avó acha que não são verdadeiras senhoras. Eu não disse nada, porque nesse momento bem que teria dispensado o meu chapéu, que me fazia suar em bica, pela cara e pelo pescoço. A minha carteira saltitava de encontro à minha anca, enquanto transportava os sacos das compras pela rua acima. Daí a pouco a minha avó comentou casualmente:
- Hoje em dia as moças novas não ligam nenhuma à etiqueta da toillette, pois não?
Reprimi um sorriso, pensando na minha irmã Madalena com a sua minisaia e top justo quando sai à noite. A avó teria um ataque se a visse assim vestida, mas para nós era normal. Às vezes olhava-nos de lado por causa de uns simples calções.
- É um tempo diferente, avó - respondi, suspirando aliviada quando a Maria nos abriu a porta e me tirou os sacos das mãos.
- Pois, lá nisso tens razão, filha - aquiesceu a minha avó. Um segundo depois acrescentou: - Mas vocês tenham tino com o que vestem, Lúcia, que as más-línguas estão sempre prontas para julgar os outros! Além disso, as primeiras impressões que se tem sobre uma pessoa são as mais importantes.
- Sim, avó - respondi, escondendo a minha expressão enquanto pendurava os chapéus no bengaleiro e pousava as malas na banqueta. - Mas, explica-me lá, avó, porque é que os chapéus eram tão importantes na toillette das senhoras?
- Ah, os chapéus! Eram de todas as cores e feitios, havia-os grandes e pequenos; eram parte da própria moda - contava a avó com um ar sonhador, sentada na sua poltrona favorita. Eu sentei-me de pernas cruzadas no sofá e ali fiquei o resto da tarde, a ouvir histórias sobre chapéus.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Origem de alguns contos de fadas é anterior à época em que foram escritos!





Segundo o The Guardian, foi recentemente publicado um estudo sobre a origem dos contos de fadas, efectuado pela Universidade de Durham, em Inglaterra, em parceria com a Universidade Nova de Lisboa. Com este estudo, os académicos comprovaram que a origem de contos nossos conhecidos como A Bela e o Monstro, João e o Pé de Feijoeiro ou Rumplestilskin é milhares de anos anterior à altura em que os mesmos foram escritos. É curioso deparar-me um artigo tão interessante relacionado com este tema, uma vez que pensamos muito pouco sobre as origens dos contos de fadas e da própria arte de contar histórias. Além disso, este é um tema de que gosto muito e é parte integrante da minha dissertação de mestrado; quase que veio mesmo a propósito. 

Espero que gostem. Bem-haja!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Pedaços de Escrita #41






Perto do rio, o nevoeiro adensava-se invernosa enquanto caminhávamos pelo trilho escorregadio, num passo estugado. A luz pálida tornou-se mais forte enquanto o sol corria pelo céu e a manhã se escoava. A viagem nunca me parecera tão longa como nesse momento, porque continuávamos a caminhar num ritmo cada vez mais rápido e quando chegámos a uma bifurcação, Liam praguejou. Percebi pela sua expressão que o dilema lhe corroía os nervos. Ponderou a situação por um momento e, sem um único olhar de relance para mim, avançou a passos largos pelo trilho da direita. Respirei fundo, engoli uma resposta torta e seguiu-o, embora me apetecesse bater-lhe. Não trocáramos uma palavra desde a discussão da noite anterior, e não era eu quem tinha de dar esse passo. Ele sabia que eu tinha razão, mas teimara em ignorar as minhas palavras e insistira nesta viagem repentina, arrastando-me com ele, quando não havia motivo para precipitações, embora eu tivesse visto o medo nos seus olhos e a urgência nos gestos.

Caminhávamos há tanto tempo que eu já perdera a conta aos dias, mas as grandes neves estavam a chegar, o que significava que não podíamos demorar na estrada. O nevoeiro começou a levantar e nas copas altas dos carvalhos e das faias, os pássaros chilreavam sem cessar e os animais pequenos faziam restolhar a vegetação rasteira. Liam parou de repente e eu parei também, perguntando-me a que se devia aquela interrupção abrupta, quando ouvi o tropel atrás de nós. Pela primeira vez nesse dia, Liam olhou para mim, com um olhar que era todo alarme. Tomei a dianteira e peguei-lhe na mão, puxando-o para o abrigo das árvores e empurrando-o para trás de um grande carvalho. Quem quer que fosse a passar não nos veria da estrada.

Com o coração alvoraçado, encostei a cabeça ao peito dele e fechei os olhos, tentando acalmar a respiração. Esperava que ele tentasse fazer o mesmo, porque se fosse tomado pelo pânico, eu, sozinha, não conseguiria ajudá-lo. Para minha surpresa, Liam abraçou-me, como se esperasse tranquilizar-me com o gesto; mas era ele quem estava aterrado. Retribui-lhe o abraço e ouvi-o suspirar profundamente. Não sei quanto tempo assim ficámos, mas pareceu-me uma eternidade e era tarde quando desfizemos o nosso abraço para regressarmos à estrada. Estava frio e levantara-se vento, mas caminhámos até ao crepúsculo.

Contrariamente às minhas expectativas, ele não me largou a mão; na verdade segurou-a suave e firmemente, como se eu fosse a única âncora da sua sanidade. 
Saímos da estrada e procurámos abrigo na floresta, acampando numa pequena gruta. Apesar da fogueira baixa, o frio era tão cortante que nos encostámos um ao outro enquanto comíamos frugalmente e nos quedávamos em silêncio a escutar os ruídos da noite. Quando a fogueira se reduziu a cinzas e pensava que ele já tinha adormecido, Liam murmurou:
- Perdoa-me, meu amor.
- Está tudo bem - respondi-lhe, erguendo uma mão para lhe acariciar a face. A minha fúria já se tinha dissipado e agora só desejava confortá-lo. Afundei-me no seu abraço e senti os seus lábios na minha testa.
- Não devia ter dito o que disse - ouvi-lhe a sombra da tristeza na voz.
- Nem eu - disse-lhe.

Procurámo-nos, hesitantes, na escuridão e quando os nossos lábios se tocaram, soube que a zanga tinha passado. Trocámos beijos e carinhos; depois, esquecido o medo, amámo-nos com um fervor apaixonado, até adormecermos nos braços um do outro. E no dia seguinte prosseguimos a nossa viagem de regresso à casa longínqua com o coração mais leve, mas a mente fugindo para as preocupações quotidianas e os perigos da estrada. O inverno é perigoso para viajar, mas apesar das minhas reservas, alcançámos o nosso destino antes das primeiras neves. Por quanto tempo duraria a nossa paz ou quando desapareceriam os fantasmas antigos dos sonhos de Liam, eu não sabia. Mas sabia que estávamos finalmente em casa e que tínhamos, por fim, uma hipótese de sermos felizes.

sábado, 9 de janeiro de 2016

O Voo do Corvo, Juliet Marillier





Neste segundo volume da trilogia de Shadowfell deparamo-nos uma impressionante reviravolta. Após recuperar da longa e reveladora viagem, Neryn aceita o seu destino e empreende uma nova aventura nas terras de Alban, à procura daqueles que a podem guiar no uso sábio do seu dom. É mais uma vez posta a prova das formas mais duras, mas prevalece sempre; enquanto isso Flint vai escorregando em direcção àquela que parece ser a derradeira decisão: continuar a fingir perante o rei ou juntar-se de vez aos rebeldes? Tanto um como o outro enfrentam desafios que tanto os afastam como aproximam e que lhes impõem uma dolorosa perda e acentua a corrida contra o tempo. Será que os rebeldes conseguirão levar a sua causa a bom porto? Haverá ainda esperança num amanhã melhor para Alban? Espero descobrir em breve.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A Chama de Sevenwaters, Juliet Marillier





Eis que termina uma das melhores, ou mesmo a melhor saga de romance fantástico. Claro que a segunda parte parece um pouco alheada da primeira, mas ainda assim é irresistível. Marillier nunca deixa de nos surpreender com a sua mestria de contar histórias. Neste último volume de Sevenwaters a autora confere um derradeiro final feliz a esta familía tão amada pelos leitores. O facto de Maeve encontrar uma nova esperança e um novo rumo enche o leitor de alívio e ternura, porque é mais do que justo; Finbar relembra-nos,em certos aspectos, o seu homónimo e impressiona pela sua coragem e bondade; Ciáran encontra por fim o seu destino. Mais uma vez nos deparamos com uma viagem repleta de sacrificio e recompensa, que nos rocorda que todos os nossos actos têm as devidas consequências e beneficíos, que quando menos esperarmos o destino virá ao nosso encontro. Esta é daquelas sagas que nos fica sempre, haja o que houver e, por isso, recomendo vivamente a leitura e releitura.